segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Os faróis de Alexandria

Os faróis de Alexandria

Antonio Prata

As grandes ideias da humanidade não foram criações individuais, estalos de sábios isolados em suas cavernas ou gabinetes. O zero, o monoteísmo, a escrita, são iluminações coletivas, chamas oriundas da fricção de pensamentos distintos, em áreas de intenso tráfego humano. E qual ocupação mais obriga o indivíduo a chocar-se, diuturnamente, com todas as esferas do pensamento? Taxista, evidentemente. Eis porque o seu Araújo, motorista com ponto ali na esquina da Monte Alegre com a Wanderley, é a pessoa mais criativa que eu já trombei nesses 32 anos sobre a Terra.

De manhã é uma freira pra Casa Verde, depois o delegado, pros lados do Tucuruvi, então os estudantes de Agronomia, aparentemente amaconhados, indo pro Sumarezinho, onde entra o atacadista coreano, atrasado para o jantar de fim de ano com seu grupo de night bikers. De cada um, Araújo retém uma gota, que deságua no vasto oceano de seu pensamento. Seu táxi é uma Mesopotâmia sobre rodas, Alexandria com faróis de milha, oráculo de Delfos cheirando a sachê de pinho.

Ontem, seu Araújo levou-me de Pinheiros a Perdizes. Estava desanimado com o movimento neste fim de ano. "É a crise", eu disse. "Tsc tsc", ele fez e, olhando-me como se eu fosse um desinformado, soltou: "o Natal tá acabando". "Como?!". "Acabando. Em cinco, dez anos, no máximo, não vai mais ter nada disso de árvore, Papai Noel, presente... Vai ser que nem esses feriados que ninguém sabe a razão." Eu quis saber por que, mas ele já havia mudado de assunto ? e de humores. Indignado com o escândalo dos panetones, seu Araújo deu-me a solução para todos os males nacionais: "Tinha que fazer uma revolução francesa. Sabe como é? Pega todo mundo que tá no poder: corta a cabeça. Bota uma turma nova. Aí, no que eles acostumam, decepa outra vez. Traz um pessoal diferente, vai cortando e trocando, cortando e trocando, que é pra não acomodar. não acha que resolvia?!"

De violência o papo descambou pra terrorismo, e foi aí que meu amigo me contou que os atentados de 11 de setembro nunca aconteceram. "Você conhece alguém que morreu lá?". ''"ão, mas foi nos EUA, então é normal que...". "Não conhece, ?!". "Não". "Tá vendo? Faz oito anos que eu pergunto, ninguém conhece! É efeito especial. Imagina se prédio cai retinho, daquele jeito..." O Bin Laden foi criado num computador, assim como a Xuxa, ele jurou de pés juntos, já no fim da corrida. "Tenho um cunhado que dirige uma Van no Projac. Sabe tudo. , a mulher taí desde oitenta e pouco, com a mesma cara?! O mesmo corpo?! É coisa daquele Hans Donner, computador! Ou acha que não?!".

Eu? Quem sou eu, seu Araújo? Trabalho sozinho, fechado em meu escritório e não sei nada das coisas deste mundo.

Fernando Pessoa e os mitos

Fernando Pessoa e os mitos

“A concepção do poeta como criador de mitos está longe de ser trivial em nossa época“

ANTONIO CICERO, Folha de São Paulo

"O MITO é o nada que é tudo", diz o famoso primeiro verso do poema "Ulisses", do livro "Mensagem", de Fernando Pessoa. Em anotação de 1930 que devia ser o esboço do prefácio para a edição projetada das suas obras, ele diz: "Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade".

Essa concepção dos mitos como obras parece-me estar de acordo com a concepção homérica. Na cultura oral primária grega, que desconhecia a escrita, "mythos" se opunha a "epos". "Epos" (de onde vem "epopeia", a produção de "epos") é o discurso que se reitera, como as canções, os provérbios, algumas rezas, os epítetos tradicionais dos heróis ou deuses, e cada palavra individual.

"Mythos" é, ao contrário, o que jamais se reitera, como uma conversa qualquer, isto é, aquilo que se diz sobre alguma coisa. Assim, o mito de Édipo, por exemplo, é simplesmente o que se diz sobre Édipo. Pois bem, o que é que se diz sobre Édipo? Para nós é principalmente o que os poetas disseram sobre Édipo; em primeiro lugar, é o que os maiores poemas sobre Édipo disseram sobre ele: e esses são as peças de Sófocles; em segundo lugar, é o que os outros, como Freud, disseram principalmente a partir do que Sófocles dissera. Assim também, o mito de Ulisses é principalmente o que dele nos contam os poemas homéricos; o de Hamlet, principalmente o que dele nos conta Shakespeare etc.

Segundo o historiador Heródoto, foram os poemas de Hesíodo e de Homero que criaram "uma teogonia para os helenos e deram as denominações e as honras e distribuíram as artes e indicaram os aspectos dos deuses".

É isso sem dúvida o que Pessoa pensava quando, em anotação, de 1918, disse que "a religião cristã é essencialmente dogmática, no sentido de que tem princípios assentes, aos quais o crente tem, dentro de estreitos limites, que subordinar-se. No paganismo não é assim. A sua ação imaginativa criadora não se sente presa. Pode inventar um belo mito, que, se na verdade for belo ou insinuador, entrará na religião. Tão humana comunhão com a vida dos deuses não é possível no cristismo. O cristão católico tem a liberdade de inventar aparecimentos de Maria a este ou àquele, mas há severos limites às suas faculdades mitopeicas".

Dado que o criador de mitos, como mostra Heródoto, é o poeta, então é o poeta que, ao criar mitos, exerce, segundo Pessoa, "o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade": e é esse poeta que ele pretende ser.

Observo que essa concepção do poeta como criador de mitos está longe de ser trivial em nossa época. Muito mais comum é a contrária, que vem, em última análise, do romantismo, mas cuja origem mais remota talvez esteja em Platão. Refiro-me à concepção segundo a qual o mito é um arquétipo imemorial, incriado, que os poetas, por um processo de anamnese, recuperam para a comunidade a que pertencem. Para Pessoa, segundo penso, o mito é exatamente o oposto disso: o produto da poesia.

Não é gratuitamente que Pessoa retoma o mito de Ulisses e sua lendária fundação de Lisboa. Seu Portugal representa o mais alto destino não tanto da Grécia, da Europa ou do Ocidente em particular, mas, no fundo, de todos esses e mais, isto é, o destino do mundo moderno. "A arte portuguesa", diz ele em "Ultimatum e Páginas de Sociologia Política", "será aquela em que a Europa (entendendo por Europa principalmente a Grécia Antiga e o universo inteiro) se mire e se reconheça sem lembrar do espelho".

É assim que a verdade profunda do seguinte texto de Pessoa fica mais evidente quando se compreende que a palavra "português" funciona nele como um curinga, podendo ser substituída por "brasileiro", "italiano", "russo" etc.:

"Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistamos já o Mar: resta que conquistemos o Céu [...]. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade".

a.cicero@uol.com.br

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Mario Bortolotto e violência: uma falsa associação

Mario Bortolotto e violência: uma falsa associação

Título do blog 'Atire no dramaturgo' é homenagem ao livro 'Atire no Pianista', de David Goodis

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo

Mario Bortolotto vem reagindo e, ao que tudo indica, em breve vai poder falar do assalto que quase lhe tirou a vida. Talvez não tenha muito a acrescentar sobre o incidente, mas poderá desfazer a relação entre sua obra e a violência, preocupação evidente de seus amigos que pode ser detectada em vários textos veiculados pela Internet.

A inquietação mais intensa diz respeito ao equívoco envolvendo o nome do blog de Bortolotto, intitulado Atire no Dramaturgo. Muitos se preocuparam em esclarecer a origem desse batismo, homenagem ao livro Atire no Pianista, do David Goodis. Trata-se de um romance policial que, por sua vez, remete ao cartaz NÃO ATIRE NO PIANISTA que podia ser lido nos saloons do Velho Oeste.

Outra fonte de equívoco talvez tenha vindo das imagens publicadas no blog de Bortolotto da peça Brutal, em cartaz no Espaço dos Parlapatões na madrugada do assalto. Sobretudo uma imagem, respingada de sangue, da atriz Maria Manoella. Mulher do ilustrador Carcarah, que também foi baleado, ela enfatiza: "a peça é um manifesto contra a violência."

Ainda assim, o tom de Brutal é quase exceção na vasta obra desse dramaturgo. Os personagens de Bortolotto costumam portar mais copos do que armas; há mais outsiders do que bandidos. Editadas, são 19 peças, em três livros de coletâneas. Quem se der o trabalho de ler verá que mesmo os bandidos, em sua maioria, como no velho oeste, orgulham-se de um código de honra no qual não cabe o ataque covarde.

Há quem compare Bortolotto ao Plínio Marcos, mas se há algo em comum, é apenas a compaixão pelo ser humano desgarrado. E só. São universos diferentes. Os personagens de Plínio Marcos lutam para se integrar. Gostariam de ter família, casa e carro, mas têm um impedimento de origem: a pobreza extrema. Por isso são trágicos, nascem marcados por um destino imutável. Querô, filho de uma prostituta que se matara tomando querosene e é criado num bordel, não pode conquistar nada na vida. Seu meio ambiente e seus recursos não permitem, ainda que ele tente.

Já os protagonistas de Bortolotto tornam-se marginais - no sentido de estar à margem, na periferia do sistema econômico - por conta de sua escala de valores. Eles recusam a ideia da conquista de um carro 4x4, roupas de grife, casa na praia e celular último modelo como sinônimo de sucesso. São marginais porque preferem a liberdade de não produzir em série numa esteira industrial, coisa antiga, ou de "serem produzidos em série", expressão talvez mais pertinente ao jovem trabalhador na atual sociedade de consumo digital. Uma dramaturgia assim nada tem a ver com o estímulo à violência, pelo contrário. Hoje em dia mata-se e morre-se por um "vai passando o celular" como disse o assaltante que atirou em Bortolotto, no testemunho de seu amigo Carcarah, também baleado. E Bortolotto, que não dá a mínima por um celular, reagiu, provavelmente pelos amigos.

Fiel ao que prega, ele não tem muitos bens materiais, apenas uma quitinete no centro da cidade, comprada com os direitos autorais pagos pelo ator Raul Cortez por duas de suas peças, seus livros e sua obra, essa última um bem 'apenas' simbólico, imaterial. Tem muitos amigos e de boa cepa. "Cuidado com a vaidade da dor", foi uma frase ouvida pela reportagem do Estado no sábado, na Santa Casa de Misericórdia. Havia ali um acordo tácito de não se gravar entrevistas para a televisão. Assim, evitou-se o espetáculo da comiseração e da solidariedade forçada. Carcarah, ilustrador, autor dos desenhos de capa de dois livros de Bortolotto, um deles Atire no Dramaturgo, compilação de textos do blog, hesitou em dar entrevista ao Estado depois de ter alta do hospital. "Pode dar a impressão de que estou querendo aparecer. Quem tem de falar é ele, quando estiver bom." Bortolotto pode não ter muito a esclarecer, mas vai saber que os valores de seu teatro têm ressonância. No mínimo, entre seus amigos, que não são poucos.

La main de gloire

La main de gloire

Verissimo, Estado, 29 nov. 2009

O próprio Thierry Henry pede que o jogo seja repetido. Ele está sendo corroído pelo remorso. Levou, sim, a bola com a mão na jogada que resultou no gol que classificou a França para a Copa do Mundo - e desclassificou a Irlanda. Thierry Henry tem sonhos. Num dos sonhos, gnomos irlandeses invadem o seu quarto enquanto ele dorme e levam a sua mão! Thierry Henry acorda sem sua mão esquerda, a que ajeitou a bola para o passe. A mão criminosa, levada para Dublin, para ser julgada. Em outro sonho, a seleção da França entra em campo para o seu primeiro jogo na Copa da África do Sul, e o estádio inteiro agita a mão esquerda no ar enquanto vaia os franceses, e Thierry Henry identifica a sua própria mãe no meio da multidão gritando "Vergonha! Vergonha!" "Honte! Honte!" A seleção tenta se refugiar no vestiário, mas as mãos vão atrás e derrubam os jogadores com cócegas e tapas. Ouve-se no estádio uma nova versão da Marselhesa: Alonsanfã de la patrie, la main de gloire est arrivê... Thierry Henry não consegue comer. Pela sua saúde - sem falar na sua honra e na honra da França - é preciso que o jogo seja anulado e jogado outra vez. Mas a Fifa resiste.

- Pense na complicação, Thierry. Anular um jogo e organizar outro... Mudar todo o nosso calendário... Não dá.

- Mas eu não aguento mais o remorso. Não durmo, não como... E o bom nome da França?

- Temos de ser práticos, Thierry. Aconteceu, foi lamentável, mas não se pode mudar a História. E o bom nome da França, que já resistiu a tanta coisa, certamente resistirá a mais isto. O governo de Vichy foi bem pior.

- Sim, mas e eu? A minha história, o meu bom nome? E a minha saúde?

- Tudo isto passará com o tempo, Thierry. E tem outra coisa.

- O quê?

- Pense no precedente.

A Fifa tem razão. Repetir o jogo por causa da mão e da culpa de Thierry Henry criaria um precedente incômodo. O remorso de Thierry Henry poderia contagiar o planeta. O arrependimento e a ânsia de confessar erros e corrigir a história poderia extrapolar do mundo do futebol (outras mãos decisivas que o juiz não viu, pênaltis fingidos, campeonatos comprados) para o da política ("Roubei, roubei sim! Quero que me cassem!") e dos negócios ("Superfaturei! Explorei meus empregados! Não mereço a minha fortuna!") e acabar numa orgia de autorrecriminação e reparação, culminando - por que não? - com as Américas sendo devolvidas aos índios.

Mas Thierry Henry insiste. Sua culpa precisa ser expiada.

Maradona telefona.

- Tchê, Henry. Que pasa?

- Foi o passe que dei depois de ajeitar a bola com a...

- No, no. Que se passa por aí? Que história é essa de querer voltar atrás e desfazer a sua mão? Vão acabar pedindo que a Argentina devolva a Copa de 86 por causa do gol que eu fiz com a mão contra a Inglaterra. Ou decidindo repetir aquele jogo. Nada de voltar no tempo, viejo. Para com isso. O que está feito, bem ou mal, está feito. Volver é nome de tango.

- Mas você nunca sentiu remorso?

- Re o quê?

Thierry Henry finalmente cede. Não insiste na expiação da sua culpa. Raciocina assim: se a França for mal na Copa, será castigo suficiente. Se a França ganhar a Copa, então rasgará as vestes, derramará champanha sobre a própria cabeça e será esmagado e carregado no ar por homens suados, como contrição.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A arte de cantar na chuva

A arte de cantar na chuva

Arnaldo Jabor, Estado, 08 dez. 2009

Nietzsche escreveu: "Há muitos séculos, em um ponto perdido do universo, banhado pelas cintilações de inúmeras galáxias, houve um dia um planeta em que animais inteligentes inventaram o Conhecimento. Foi o instante mais arrogante e mais mentiroso da história do universo, mas foi apenas um instante. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta se congelou e os tais animais inteligentes tiveram que morrer."

Parece o prólogo de Guerra das Estrelas, mas é uma ironia, porque Nietzsche achava que, por trás da busca científica e racional da verdade, mora o desejo da morte, de esgotamento da vida, por uma letal explicação de tudo. No mundo atual, vemos o espantoso descompasso entre o avanço científico e humano, vemos a convivência horrível entre o Hubble, a fome e o massacre de miseráveis.

Nietzsche sonhava com um futuro (nem ele escapou de um "finalismo"...) que daria sentido à vida:

"A arte é mais poderosa que a Ciência, pois ela quer a vida, enquanto o objetivo final do conhecimento é o aniquilamento." Claro que não tenho nível para aprofundar este tema; mas temos hoje esta maravilhosa e imprevisível metástase da informação digital da tecnociência ao lado do indigente, tuberculoso desempenho artístico do mundo.

Onde está a grande arte hoje? A falta de esperança ou da ilusão de futuro gerou uma debandada em todas as direções:

O catastrofismo para as massas (2012), a indústria dos best-sellers e autoajuda, a literatura engajada, a literatura do cinismo histérico de um caos "pop", os tubarões petrificados (Damian Hirst), latinhas de cocô de outros picaretas e a ausência de música erudita relevante.

No cinema, por exemplo, temos de um lado o mercantilismo escroto de Hollywood e do outro a agonia do filme independente.

Até pouco tempo, alguns cineastas americanos tinham fascínio por climas "densos", como eles imaginavam que era a "arte europeia". Geralmente, esses filmes ficavam ridículos.

Era patético ver os comedores de cachorro-quente falando do Ser e do Nada. Mas até isso acabou.

Com a morte do "Absoluto europeu", os ideólogos do mercado estão eufóricos. A expressão "eurocentrismo" passou a ser um xingamento. Os mercadores americanos chamam os europeus de "decadentes e intelectualizados". Seu fracasso seria devido ao "esnobismo", recusando-se a qualquer coisa que faça sucesso comercial. Dizem: "Como são incapazes de se modernizar (leia-se: "americanizar"), os europeus se "refugiam no passado"."

"O último grande pintor francês foi o Jean Dubuffet", afirma a besta quadrada do Fernando Botero, o mais domesticado dos pintores latinos e, claro, sucesso entre os burgueses de Nova York. O pior é que é verdade. A pintura europeia, a música, o cinema, tudo está na UTI. Mas, a culpa é de quem? A Europa teria ficado burra? Os americanos acham que a Europa é "inteligente demais", e que isso atrapalharia a criação artística.

Sempre houve uma bronca contra a "profundidade" da cultura do Velho Mundo. Isto foi tema de vários musicais e chegou, paradoxalmente, a criar obras-primas como Cantando na Chuva ou Band Wagon (Na Roda da Fortuna).

E, no entanto, eles não sabem que a genial originalidade de seu cinema vem justamente do "superficial" em filmes sem ambições. Busby Berkeley foi tão importante quanto os "Ballets Russes".

Do outro lado do muro, vemos a solidão melancólica das vanguardas e dos filmes independentes.

Nos guetos, a vanguarda luta desde 1916, desde o Cabaret Voltaire, desde o dadaísmo, mas parece que ninguém mais presta atenção nestes "excluídos", porque, como sacaneou o Louis Jouvet: "Tudo muda, só a vanguarda não muda..."

O conceito de "experimental" está muito ligado à ideia de sofrimento, autodestruição, à proibição da redundância como um crime e ao cultivo do desagradável e do frio. A experimentação tinha de ser, como queria Stravinsky, "exaltante". A arte se fechou numa paranoia conceitual e minimalista. Ou melhor, o mundo fechou os artistas.

Movidos pela ideia socrática que Nietzsche tanto ataca, de que a arte tem de ser subordinada à Razão, os artistas caíram numa denúncia melancólica das impossibilidades. Não há futuro para a arte subordinada à razão, seja ela digital, mercantil, iluminista ou o cacete a quatro.

Prevaleceu a vertente "triste" do modernismo, a vertente "conceitual" que joga sobre o "mal do mundo" apenas um vago mau humor, uma ideologia nevoenta de criticismo, apenas uma arte enojada contra o mal-estar da civilização. Acho que está na hora de se recriar um construtivismo positivo, em vez da destrutividade automática.

Por que a melancolia seria mais profunda que a alegria?

O "novo" não poderia ser um "belo" que denuncia, com sua luz, a injusta vida?

Será a melancolia a única forma de reflexão? Como então explicar Fred Astaire, a arte pop, o jazz? Michael Jackson? Depois do pop, será que uma aids "conceitual" não atacou tudo, depauperando a luta? E se a arte tentasse disputar pau a pau com o Sistema, mesmo sabendo que perde, em vez de cair nesta autoflagelação acusatória?

Outro dia fui ver Lua Nova com meu filho. O filme é ruim, mas é "bom" ? há ali algo de novo, como se fosse filmado e montado por vampiros e lobisomens. Batman também é ruim, mas é "bom" ? um apocalipse ou uma apoteose de efeitos especiais que transformam em caretice linear o surrealismo ou o dada. Sempre esculachei o cinema brutamente comercial, mas hoje vejo que há nestes novos delírios de massa alguma semente formal do que poderíamos chamar de um novo "barroco digital".

Precisamos de arte, como uvas e frutos e danças e como um coro de Silenos, de Dionísios, pois a ciência e a razão querem chegar até os ossos da "essência". A arte tem de ser o grande ritual de embelezamento da vida. Nietzsche: "A ilusão é a essência em que o homem se criou."

A arte é a ilusão aceita, a clareza feliz de que a aparência é o lugar do humano e que só nos resta essa hipótese de felicidade num planeta gelado.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sonhando acordada

Sonhando acordada

Fonte: Adriana Falcão, Estado, 28 nov. 2009 

Luciene e... Gabriel!

Gabriel ia ser o máximo.

Imagina só eu com um namorado que atendesse pelo nome de Gabriel?

- Mas vejam que novidade, você está namorando! Como é que ele se chama?

- Gabriel.

- E ainda tem nome de anjo!

Todo mundo ia ter inveja de mim. Ainda mais que Gabriel tem a maior cara de homem bonito. E inteligente. E rico. E jovem. Mas aí também já era querer demais. Não. Gabriel é muita areia pro meu caminhãozinho.

Filipe?

Luciene e Filipe. Não é anjo, mas é rei. Filipe IV, rei de Espanha. Sendo que, com a minha falta de sorte, está na cara que o meu Filipe ia ser, no máximo, vereador. Ainda assim eu duvido que ele ganhasse a eleição. Arranjar um namorado já está difícil, quanto mais um namorado vencedor. Nunca que eu ia conseguir um negócio desses. Desculpa, Filipe, mas você acaba de perder a chance de namorar comigo pela razão de que eu nunca conseguiria ter chance com você.

Melhor pensar menor.

Não precisa ser rico, nem jovem, nem rei, nem candidato a nada.

Se estiver empregado já é um luxo.

Digamos, Bento.

Bento é bom. Um rapaz meio tímido, meio apagado até, mas muito sincero. Bento é ótimo. Trabalhador. E não é nome tão concorrido. Não é possível que eu não encontre um só Bento disponível. Mas o problema é justamente que Bento tem pouco. Melhor arranjar um nome mais usado.

José. É bastante populoso. Com a vantagem que pode ser José Antônio, José Armindo, José qualquer coisa que fosse. Juro que eu não me incomodava se fosse José Pafúncio. Eu chamava ele de Zé puro e a gente ia ser feliz até demais.

- Zé!

- Fala, Luciene.

- Me chama de Lu.

- Pra quê?

- Pra todo mundo achar que eu me chamo Luciana.

- Se for pra mentir, melhor chamar logo de Diana que é nome de princesa.

- Diana e Charles.

- Charles não, Luciene, eu prefiro José Pafúncio.

José Pafúncio tem razão, mesmo não existindo. Mentir não vale. Tem que ser um namorado com o nome dele mesmo. Deve ser por isso que a gramática chama isso de "nome próprio". Porque é o nome próprio da pessoa. Ainda que a pessoa seja pura imaginação. E mesmo que eu não ache apropriado alguém se chamar Hipólito, se vier um Hipólito, há de ser Hipólito e pronto. Popó, que seja. Pois apelido, isso é claro que vale.

Lu e Popó?

Para de pensar besteira e vai dormir, Luciene, que amanhã você tem trabalho cedo!

O homem-bomba matou o ''eu''

Realmente, é para se pensar!

O homem-bomba matou o ''eu''

Arnaldo Jabor, Estado, 01 dez. 2009

"Ultimamente, dei para falar sozinho. Não falo baixinho não, falo sozinho mesmo, principalmente de noite, deitado na cama e tentando entender o que se passa comigo. Falo alto e chego a ficar com medo. Medo de quê? Medo de entender quem fala com quem, quando falo sozinho. Eu falo e ouço ao mesmo tempo. Mas, quem ouve o que eu falo? Por exemplo, se eu disser no escuro do meu quarto: "Onde eu errei naquele amor?" Tenho medo de que alguém me responda na sala ao lado, de dentro do banheiro vazio, onde pinga o chuveiro e a privada gorgoleja. Uma coisa que me intriga é a forma de falar sozinho; devo falar com todos os "ss" e "rs", ou posso falar desleixadamente, pois afinal de contas eu sei o que estou falando?

Aliás, nem preciso falar alto, basta pensar entre resmungos, gemidos e risos abafados; mas, aí me assalta outro medo: há dentro de mim uma terceira pessoa ouvindo o diálogo de mim comigo mesmo? Mas, não resisto aos clamores da norma culta e tento falar com alguma qualidade literária para mim mesmo. Assim, aumenta minha angústia. Uma pessoa fala - que sou eu - outra pessoa ouve - que sou eu - e uma terceira pessoa julga a qualidade do meu discurso, que também sou eu. Estarei maluco? Escrever também. Para quem eu escrevo isto, aliás? Escrevo para mim mesmo, mas leio como se fosse outro, um crítico, um "Antonio Candido" dentro de mim. Quem é o outro que me lê dentro de mim? Estou cercado por vários personagens que me rondam, andam pelo quarto, vão até a sala, abrem a geladeira, comem meu pudim e voltam, sempre ouvindo e julgando.

Quero ficar sozinho e não consigo. Vou ao espelho e me olho. Madrugada. Não estou sozinho, porque me vejo me vendo no espelho. "Je... est un autre." Não há "eu". Quem disse isso? Foi Rimbaud ou Artaud? Acho que os dois. Estou possuído por outros "eus" que não são "eu"...

(Este texto seria o início de uma novela que pensei em escrever. Não o fiz, mas serve para abrir este artigo de hoje - "papo-cabeça meia-boca", desculpem...).

Afinal de contas, quem sou eu? Fico falando na TV, escrevendo nos jornais, tentando ser um sujeito útil, mas, no duro, quem fala debaixo destas duas letrinhas: "Eu"?

Oscilamos entre o desejo de ser "especiais", únicos e brilhantes sujeitos, para sair do anonimato (supremo pavor) e ser algum "eu", ou então temos o desejo da solidão absoluta, ser "nada", apenas um bicho sem memória ou desejo, uma formiga conduzida por um comandante qualquer.

Talvez nesse "bicho sem eu" haja um "eu" mais geral, feliz, sem fraturas, um eu submisso, nosso desejo oculto, como escreveu Dostoiewski ou um sujeito mítico, como nos revelou Levi-Strauss sobre a mente selvagem. A tradução da palavra Islã é submissão; o eu selvagem é "fora do tempo" ("timeless").

Para nós, ocidentais de base judaico-cristã, é difícil, porque inventaram o tal "livre arbítrio" (cf - O Grande Inquisidor, de Dostoievski). Entre o indivíduo e a massa, entre o ser e o nada, respira a liberdade, como um bicho sem dono, a liberdade, esta coisa que nos provoca tanta angústia. Que liberdade? Para ser contra a guerra? Ou para ser a favor da guerra? Tanto faz, pois a guerra já está decidida pela marcha das coisas.

O "eu" está sem orgulho, sentindo-se inútil. O "eu" virou um luxo para poucos.

Há o desânimo de pensar, de escrever sobre algo morto e inevitável e que já foi decidido. Sem esperança não há filosofia. Temos de nos conformar que não há mais solução para o terrorismo, para a boçalidade, para o mal, para a miséria, para o meio ambiente.

Só resta ao "eu" acumular riquezas, charmes ou ilusões. Seria o "eu-burguês", o "eu-Miami", o "eu-narciso", o "eu" que mostra a bunda, o "eu" de silicone ou o "eu-Big Brother". O homem-bomba matou o Eu.

Todo o pensamento humanista está tristinho, queixoso de tanto absurdo, tanto na guerra internacional como na vida urbana. De que adianta o lamento, o escândalo? Como falar em compaixão a propósito de um menino de 13 anos que decepa a cabeça de um colega com um machado? Como falar em democracia com muçulmanos analfabetos, que desde o século 7º batem a cabeça nas pedras para extirpar qualquer resquício de liberdade, enquanto aqui na América Latina a democracia é usada para novas ditaduras?

O século 21 começa como uma Idade Média, comandado pela indústria das armas e da poluição incontrolável. Não dá para entender os acontecimentos à luz de um antigo humanismo, de uma tradição racional que nos prometia um futuro de harmonia. Só nos restará um "catastrofismo esclarecido", como nomeou Jean Pierre Dupuy, filósofo da Escola Politécnica de Paris e da Universidade de Stanford. Na coletânea organizada por Adauto Novaes, sobre a "Experiência do Pensamento", ele escreveu o seguinte:

"Sempre o Mal esteve relacionado com as intenções de quem o comete. Os horrores do século 20 deviam ter-nos ensinado que isso é uma ilusão. O absurdo é que um mal imenso possa ser causado por uma completa ausência de malignidade, que uma responsabilidade monstruosa possa caminhar junto com uma total ausência de más intenções. (...) a catástrofe ecológica maior com que nos deparamos e que põe em perigo toda a humanidade será menos o resultado de um mal dos homens ou mesmo de sua estupidez. Terá sido mais por uma ausência de pensamento ("thougthlessness") (...) Hoje, um sem número de decisões de toda ordem, caracterizadas mais pela miopia do que pela malícia ou pelo egoísmo, compõem um todo que paira sobre elas, segundo um mecanismo de autoexteriorização ou de autotranscendência.

O mal não é nem moral nem natural. É um "mal" do terceiro tipo, que chamarei de "mal sistêmico."

Diante da espantosa evolução da tecno-ciência, o "eu" virou uma bactéria tolerada, a ser clonada e dirigida.

Em suas aulas e seminários, Jacques Lacan sempre perguntava aos que lhe inquiriam ou criticavam: "D"ou parlez-vous, monsieur?" ("De onde" o senhor está falando?)

É o meu caso.

Afinal de contas, de onde escrevo isto? Para quê?