segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ícone repaginado

Ícone repaginado

O BIÓGRAFO OLIVIER TODD FALA DOS 50 ANOS DA MORTE DE ALBERT CAMUS, DAS DIVERGÊNCIAS COM SARTRE E DA TENTATIVA DO PRESIDENTE SARKOZY DE ENDEUSÁ-LO

"Não tenho a impressão de que Camus

tenha sido simples: era dilacerado internamente"

JOSYANE SAVIGNEAU, Folha, 03 jan. 2009

Ao rememorar o pensamento e o trabalho de Albert Camus, morto há 50 anos, Olivier Todd destaca: "Foi, em primeiro lugar, um escritor, um artista, um artesão, muito mais que um filósofo da linhagem de Platão, Kant, Sartre ou Wittgenstein".

Camus é o autor de uma das obras mais significativas do século 20, que inclui romances como "O Estrangeiro", "A Peste" e "A Queda". Recebeu, em 1957, o Nobel de Literatura.

Biógrafo do célebre escritor francês -sobre quem escreveu o livro "Albert Camus - Uma Vida" (ed. Record)-, Todd avalia, em entrevista ao jornal "Le Monde", que ele também foi um "bom analista" do momento histórico em que viveu. Camus atuou na resistência ao nazismo durante a Segunda Guerra, quando conheceu o escritor e filósofo existencialista Jean-Paul Sartre (1905-80), de quem ficou amigo.

Em 1951, lançou o livro de ensaios "O Homem Revoltado" [ed. Record], em que criticava a opressão das ditaduras comunistas. A reação de Sartre ao livro motivou o rompimento da amizade entre os dois. "Camus se defendeu bem, mas a ruptura estava consumada", diz Todd na entrevista abaixo.

PERGUNTA - Camus se tornou uma espécie de ícone. Como o sr., biógrafo dele, explica isso?

OLIVIER TODD - As pessoas o mitificam no papel de alma bela. Coisa que ele foi, para sua própria honra. Para mim, Camus foi, em primeiro lugar, um escritor, um artista, um artesão, muito mais que um filósofo da linhagem de Platão, Kant, Sartre ou Wittgenstein. Em dado momento, ele tentou exprimir uma filosofia à francesa, extremamente literária. Voltou atrás. Muito cedo, disse "não sou existencialista" e, muito tarde, admitiu que não era filósofo. Tanto melhor.

Ele não deixaria rastro nenhum na filosofia, concebida como um saber totalizante. Sua concepção do absurdo não resiste às contestações. Para ele, é quase uma substância entre o homem angustiado e o mundo irracional; o mundo não é nem absurdo nem negro nem cor-de-rosa: ele é. O absurdo não é, antes de mais nada, a contingência? Camus foi um pensador político que agiu com base em intuições, fundamentado em sua própria experiência.

Nascido na Argélia [em 1913] e morador de Argel, ele vinha de uma família de "pieds-noirs" [franceses nascidos na Argélia]. Sabia o que eram o proletariado e a pobreza. Camus não foi um visionário diante dos acontecimentos mundiais, mas se revelou bom analista do momento.

PERGUNTA - O que se diz desde então é que Camus sempre teria tido razão e que Sartre teria sempre se enganado.

TODD - Camus morreu em 1960 [em um acidente de carro]. Não sabemos como teria reagido aos acontecimentos -por exemplo, à Guerra do Vietnã- sobre os quais Sartre não demorou a manifestar sua posição.

Como muitos intelectuais franceses, Camus não entendia nada de economia. Foi um homem politicamente honesto, mesmo nos casos em que se enganou -com relação à Argélia- e em que teve razão -com relação ao comunismo. Para compreendê-lo, é preciso conhecer toda sua vida política.

Jovem, excelente jornalista que escreveu no "Alger Républicain", antes da guerra, denunciou a miséria na Cabília [a leste da capital da Argélia]. Foi repórter prodigioso, mais fascinante que o editorialista que se tornaria no "Combat" ou no "L'Express" -esse é um ponto de vista muito pessoal, reconheço.

Ingressou no Partido Comunista argelino em 1934 e se afastou dele porque o partido não defendia suficientemente os nacionalistas argelinos. Seu silêncio com relação a sua adesão ao partido me deixou perplexo. Quando, em 1945, negou ter sido comunista, estava prestes a embarcar para os EUA. Naquela época, os americanos não davam vistos de entrada aos membros do Partido Comunista. Foi um pecadilho menor para um homem que odiava a mentira.

Seu grande deslize foi a famosa e infeliz declaração, pouco lógica, que deu em Estocolmo, na Suécia, depois de receber o Prêmio Nobel, em 1957: "Creio na Justiça, mas eu defenderia minha mãe antes da Justiça". O jornal "Le Monde" a publicou fora de contexto. Beuve-Méry [jornalista, 1902-89] tinha previsto: "Em Estocolmo, Camus só dirá besteiras." Sobre Sartre e Camus, é preciso também voltar ao contexto quanto à discussão da revista "Les Temps Modernes" a respeito de "O Homem Revoltado". Trata-se de um monumento antológico da história literária, não da história política.

Tirando 50 páginas sobre o comunismo e o Marx messiânico, não gosto desse livro, misto de literatura, política, filosofia, Rimbaud, Breton... Uma parte de "O Homem Revoltado" tinha sido publicada na "Temps Modernes". Ingênuo, Camus esperava uma crítica positiva. Ele encontrou Sartre, que o preveniu: haverá reservas. Perplexo e acabrunhado, Camus descobriu uma crítica arrasadora e maldosa do filósofo Francis Jeanson.

Magoado e um tanto quanto arrogante, Camus começou seu artigo em resposta às críticas com "senhor diretor", o que irritou Sartre. Camus se defendeu bem, mas a ruptura estava consumada. Em 1954, em "Os Mandarins" [ed. Nova Fronteira], Simone de Beauvoir faz de Camus um personagem repugnante, até mesmo colaboracionista.

Foi sempre um homem marcado por dúvidas, incerto quanto a seu talento. Já Sartre acreditava na genialidade dele. Politicamente, sou mais próximo de Camus, mesmo sabendo que dizer isso hoje é fácil. Eu gostaria também que fosse lembrado que Sartre, criptocomunista, não se enganou sempre. Por exemplo, com relação a Israel e aos palestinos, com relação a Biafra [atual Nigéria]. É preciso parar de dizer que ele nos enganou. Nós nos enganamos com ele.

Eu tinha 19 anos quando conheci Sartre, em 1948. Ele teve a gentileza de me receber com bastante frequência. Conheci a obra de Camus. Não o homem. Chamou minha atenção o lado direto e simples de Sartre. Não tenho a impressão de que Camus tenha sido simples. Era muito dilacerado internamente. As relações entre os dois foram assimétricas. Camaradagem, cumplicidade, festas, mas não amizade. Tiveram atitudes muito diferentes com relação à ação. Camus pertenceu à Resistência ativa. Sartre, não.

PERGUNTA - Quais são os livros de Camus que o sr. prefere?

TODD - "O Estrangeiro" [ed. Record], "Noces" [Bodas, 1938], por seu lado lírico puro, sem grandiloquência. E, sobretudo, "A Queda" [ed. Record]. Eu fazia perguntas frequentes a Sartre sobre os livros de Camus. Ele preferia "A Queda", "porque, nele, investiu e se escondeu por inteiro".

PERGUNTA - E na obra de Sartre?

TODD - Também ele é, para mim, escritor antes de mais nada, ainda que se visse como filósofo que desvelava o mundo em sua totalidade. Gosto de "A Náusea" [ed. Nova Fronteira] e de seus romances. Sobretudo "A Infância de um Chefe" [conto do livro "O Muro", ed. Nova Fronteira]. Gosto, sobretudo, de "As Palavras" [ed. Nova Fronteira], um diamante negro que faz contraponto a "A Queda". Em "Situações" [ed. Cosac Naify], há coisas extraordinárias sobre o engajamento e um amontoado confuso político-dialético.

PERGUNTA - O que pensa das relações entre Camus e André Malraux?

TODD - Foram muito importantes. Também foram assimétricas. A correspondência entre eles é fascinante. Camus era um jovem desconhecido, e eles se escreviam de igual para igual. Foi graças a Pascal Pia e a Malraux que "O Estrangeiro" foi publicado.

Creio que Malraux nunca tenha comentado a obra de Camus. Quando Camus recebeu o Nobel, ele disse: "É Malraux quem deveria tê-lo ganho". Nas relações de homem a homem de Camus, a sombra do pai que ele nunca conheceu se faz sentir a todo momento. Foi o caso com Jean Grenier, Malraux, Sartre, René Clair -embora com este último tenha havido uma amizade um pouco solene, a julgar pelas cartas trocadas. Como estou falando sobre documentos, é preciso mencionar que ainda há muita coisa inédita. A correspondência com certas mulheres importantes da vida de Camus, entre elas Maria Casarès ou Mi, o último amor de Camus. Essas cartas foram doadas à Biblioteca Nacional da França. Ver Camus como ícone descarnado não é lhe render homenagem. É preciso conservá-lo vivo em sua complexidade e suas contradições.

Nos últimos meses, vem sendo feito um grande esforço para repintar o ícone. Os pretorianos intelectuais do Eliseu [palácio do governo francês] estão lançando uma grande manobra para, imagine só, "panteonizá-lo"! [leia texto ao lado] Camus não é nem exemplar nem edificante. Ele nos leva a refletir. Que as pessoas o leiam, em lugar de repetir generalidades sem compreender seu percurso. Gosto de uma resposta que ele deu em uma de suas últimas entrevistas. Perguntaram-lhe: "Sr. Camus, o sr. ainda faz parte da esquerda?". "Sim, apesar dela e apesar de mim." Atual, não?

--------------------------------------------------------------------------------

A íntegra desta entrevista saiu no "Le Monde". Tradução de Clara Allain .

Família rejeita ideia de levar Camus ao Panteão

Não foi bem recebida a proposta que o governo francês apresentou, em novembro, de transferir os restos mortais de Albert Camus para o Panteão parisiense. A ideia de inclui-lo com Voltaire, Rousseau e outros foi rechaçada por sua família -seria um "contrassenso", segundo seu filho Jean.

Esse é o tom dos comentários de intelectuais, que acusam o presidente Nicolas Sarkozy, conservador, de se apropriar da popularidade do autor de esquerda.

Para Jeanyves Guérin (Paris-Sorbonne), biógrafo do pensador, "Sarkozy é amigo de Bush, Gaddafi, Putin e Berlusconi. Sua política é oposta aos valores e às concepções que Camus defendia".

O túmulo de Camus, cuja morte completa 50 anos amanhã, fica em Lourmarin, sul da França.

Após 50 anos, obra de Albert Camus permanece atual

Após 50 anos, obra de Albert Camus permanece atual

Profundidade do pensamento e domínio da forma literária marcam produção do argelino, Nobel de literatura em 1957

MOACYR SCLIAR

COLUNISTA DA FOLHA

Este 4 de janeiro assinala os 50 anos da morte de um dos escritores e intelectuais mais influentes do século 20: Albert Camus. Nascido em 1913 em Mondovi, Argélia, Camus era filho de um francês morto na Primeira Guerra e de uma descendente de espanhóis. Era, portanto, um "pied noir", "pé-negro", termo que designa a população de origem francesa que vivia na Argélia.

Sua infância, em Argel, foi pobre: trabalhou com o tio, tanoeiro, e a muito custo estudou. Cursou filosofia e doutorou-se com uma tese sobre Santo Agostinho. Poderia ter seguido a carreira docente, mas a tuberculose da qual sofria (como muitos artistas e intelectuais à época) agravou-se, impedindo-o de trabalhar na área.

Em 1939, mudou-se para a França e, em 1940, aderiu ao movimento da resistência contra a ocupação nazista. Ainda em 1940, fundou, com outros, a revista "Combat", da qual foi redator-chefe de 1944 a 1946. Simultaneamente, dava início à uma carreira literária que lhe valeria o Nobel de literatura em 1957. Na Argélia, publicara "O Avesso e o Direito" e "Bodas em Tipasa". Seguiram-se "O Estrangeiro", "A Peste", "O Mito de Sísifo" e "O Homem Revoltado". Também escreveu para o teatro "Calígula", "Os justos" e "O Estado de Sítio".

Mãos sujas

Em 1942, conheceu Jean-Paul Sartre, de quem foi amigo por dez anos e com quem manteve uma das polêmicas mais famosas do pensamento contemporâneo, vinculada às grandes transformações ocorridas após a Segunda Guerra.

Com a vitória da União Soviética no fronte oriental, o comunismo stalinista expandiu-se, tomando o poder em vários países. Porém, a entusiástica adesão de muitos intelectuais à Revolução Russa, de 1917, agora dava lugar à decepção, quando não à franca revolta, como mostram os depoimentos de Arthur Koestler, Ignazio Silone, Richard Wright, Louis Fischer e Stephen Spender em "O Deus que Falhou" (1949).

Koestler, autor de "O Zero e o Infinito", romance anti-stalinista, influenciou muito Camus. Sartre, mais velho que Camus e visto como o expoente maior do existencialismo, só se aproxima da política em 1941, mas, então, sua postura é bem mais rígida. Ele de certa forma justifica os excessos do stalinismo e do regime maoista sob o argumento de que política exige "mãos sujas" ( "Les Mains Sales", título da peça teatral claramente autobiográfica descrevendo os conflitos de um jovem intelectual burguês).

Antes sujar as mãos, diz o filósofo, do que ficar em cima do muro, uma questão, como vemos, muito atual. Ao mesmo tempo, Sartre manifestava-se contra o domínio francês na Argélia que havia desencadeado uma luta de libertação. Camus era a favor da independência, mas contra o terrorismo usado pela guerrilha. A polêmica entre os dois é descrita em "Camus e Sartre - O Fim de uma Amizade", de Ronald Aronson, publicado no Brasil pela Nova Fronteira (2007).

Jogo de futebol

Àquela altura, a reputação de Camus já estava consolidada e ele viajava pelo mundo inteiro. Veio ao Brasil, em 1949, e pediu para assistir a uma partida de futebol e deu conferências em várias cidades, apesar de sentir-se doente -pode ter havido uma reexacerbação da tuberculose.

Manoel Bandeira, que esteve com ele e também era tuberculoso, conta que falaram sobre a doença e outros temas com simplicidade: "Não havia nenhum vestígio dessa personagem odiosa que é a celebridade itinerante. Não parecia um homem de letras. Era um homem da rua, um simples homem".

A autenticidade, associada à profundidade do pensamento e ao domínio da forma literária, torna a obra de Albert Camus, morto em 1960 em um acidente de carro, sempre atual.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Carta aberta ao amigo Tiger

Carta aberta ao amigo Tiger

"Fiquei comovido quando anunciaste
que se afastaria da buraqueira da vida
para ser melhor marido, pai e pessoa"

XICO SÁ, Folha de São Paulo

AMIGO TORCEDOR , amigo secador, triste de quem se protege sob o falso manto da imparcialidade e da frieza e não se comove com os ditos "dramas pessoais". Nos últimos dias, livre do selvagem grito de "chupa" que parte dos estádios, bares, varandas e janelas em São Paulo de Piratininga -que alívio-, só pensei no rolo em que se meteu o genial Tiger Woods. De buraco mais ou menos esportivo, o único que entendo é da arte de chutar tampinhas em bueiros, coisa que aprendi em um conto do João Antônio, que trata da virtuose de flanar com tal mira em ordem. Claro, na sinuca de botequim, minha canhota funciona a contento. Outrora, madruga, n'O Pescador, ganhei até do Paulo César Campos Viejo, o monstro do gênero da Liberdade e baixo Augusta. De golfe, porém, caro Tiger, gosto só da paisagem e da lentidão das partidas, além da sua elegância, óbvio.

Fiquei comovido, meu velho, quando anunciaste que se afastaria da buraqueira da vida, nela incluso o esporte fino, para ser "melhor marido, melhor pai, melhor pessoa". Tudo bem, pode ter sido apenas uma decisão do susto -e de que é feita a matéria da vida além disso?!- ou estratégia para salvar a imagem perante a caretice da América. Não importa, foi comovente, uma declaração honestíssima. Ainda mais em se tratando de um cara chegado, para valer, ao esporte olímpico ao qual estamos todos sujeitos, como protagonistas ou como vítimas: a globalizadíssima pulada de cerca. Atire a primeira pedra, querida Elin Nordegren, a ex-modelo sueca que nunca tenha pecado por vacilo ou por amor propriamente dito. Elin, o cara foi sincero, aceite o seu perdão. Você não sabe, amiga, o quanto é bom ter de volta um homem culpado publicamente pelas bolas foras e outros deslizes na grama molhada de testosterona. Será o melhor homem do mundo. Aposte nisso. Nem falo pelo dinheiro. Antes que as feministas saltem com pedras de gelo na mão para o meu uísque de fim de ano, alerto: o mesmo vale para uma cria da nossa costela quando volta prenha de culpas para o lar doce lar e nós a recebemos com tara e castigo. Um macho ou uma fêmea culpados são os melhores seres da humanidade. Elin, ponha essa aliança no dedo e aceite de volta o seu glorioso mancebo. Em tempos de homens frouxos, não há mais quem largue uma milionária carreira em nome da santa trindade: devoção pela mulher, proximidade com o filho e decência. Velho Tiger, danem-se os patrocinadores, danem-se as tacadas fora do casamento. O que importa é que deste uma grande lição, por susto ou reinvenção da ética, para todos nós. Que valha por uma lista de resoluções de fim de ano para muita gente. Parabéns, garoto!

xico.folha@uol.com.br

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Filosofia

Filosofia

Um professor de filosofia parou na frente da classe e, sem dizer uma palavra, pegou um vidro de maionese vazio e o encheu com pedras de uns 2cm de diâmetro. Olhou para os alunos e perguntou se o vidro estava cheio.

Todos disseram que sim…

Ele então pegou uma caixa com pedrinhas bem pequenos, jogou-as dentro do vidro e, agitando-o levemente, fez com que os pedriscos rolassem para os espaços entre as pedras maiores. Tornou a perguntar se o vidro estava cheio.

Os alunos concordaram: agora sim, estava cheio!

Dessa vez, pegou uma caixa com areia e despejou dentro do vidro preenchendo o restante. Olhando calmamente para os alunos, o professor disse:

- Quero que entendam, que isto, simboliza a vida de cada um de vocês. As pedras, são as coisas importantes: sua família, seus amigos, sua saúde, seus filhos, coisas que preenchem a vida. Os pedriscos, são as outras coisas que importam: como o emprego, a casa, um carro… A areia representa o resto: as coisas pequenas. Experimentem colocar, a areia primeiro no vidro, e verão que não caberão as pedras e os pedriscos. O mesmo vale para suas vidas. Priorizem cuidar das pedras, do que realmente importa. Estabeleçam suas prioridades. O resto é só areia!

Após ouvir a mensagem tão profunda, um aluno perguntou ao professor se poderia pegar o vidro, que todos acreditavam estar cheio, e fez novamente a pergunta:

- Vocês concordam que o vidro esta realmente cheio?

Todos responderam, inclusive o professor:

- Sim, está!

Então ele derramou uma lata de cerveja dentro do vidro. A areia ficou ensopada, pois a cerveja foi preenchendo todos os espaços restantes, e fazendo com que ele, desta vez, ficasse realmente cheio. Todos ficaram surpresos e pensativos com a atitude do aluno, incluindo o professor.
Então o aluno sentenciou:

Não importa o quanto sua vida esteja cheia de coisas e problemas, sempre sobra espaço para uma cervejinha!!!

Se possível, bem gelada e com os amigos.

Rua do vice-rei

Rua do vice-rei

RUY CASTRO, Folha de São Paulo

A construção de um centro empresarial com quatro edifícios de 23 andares, 22 metros de profundidade de escavação, seis níveis de subsolo e 187 mil metros quadrados de área total provocou rachaduras, abalos ou inclinações em 20 prédios da vizinha rua dos Inválidos, que liga a praça da República à rua do Riachuelo, não muito distante da Lapa. Cerca de 200 moradores foram desalojados pela Defesa Civil.

Quase todos esses prédios são tombados, preservados ou tutelados, o que fala por seu valor histórico ou cultural. Um deles, a igreja de Santo Antonio dos Pobres, de 1811, era frequentada por d. João 6º e os jovens príncipes. O trecho faz parte do Corredor Cultural, uma extensa área de preservação arquitetônica instituída pela prefeitura carioca há quase 30 anos. Tudo indica que a obra do centro empresarial, destinado à Petrobras, seja responsável pelo estrago.

A construtora alega que estava monitorando o impacto sobre o entorno. Ótimo. Mas seria o bastante? O Rio não é apenas um fenômeno natural, mas também uma admirável obra da engenharia -boa parte de seu centro foi construída há mais de 200 anos, sobre aterros que engoliram pântanos ou mandaram o mar para longe.
A rua dos Inválidos, por exemplo, é típica do velho Rio. Foi aberta em 1791, pelo vice-rei Conde de Resende, sobre um terreno alagadiço. Donde, por ali, qualquer avaliação para fins de construção precisa levar em conta, além da geografia, a história. É tudo muito delicado.

Nos anos de 1950 a 1970, ditos "dourados", as retroescavadeiras fizeram a festa contra o patrimônio da cidade. Hoje há mais consciência sobre isso. Não se trata de deter o progresso, mas, se a ideia é "revitalizar" o centro histórico do Rio, é preciso que continue a haver uma história para revitalizar.

O PT deveria conversar com Ciro

O PT deveria conversar com Ciro

ANDRÉ SINGER, Folha de São Paulo


O pré-candidato socialista detém uma característica

que o distingue na geleia geral da política:

tem ideias para o Brasil


O DISCURSO pronunciado por Ciro Gomes no plenário da Câmara dos Deputados na terça passada (15/12) abre uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada pelo Partido dos Trabalhadores.

Vocalizando o crescente mal-estar com respeito ao comportamento do partido comandado por Michel Temer, Ciro acaba por tocar em ponto nevrálgico da situação atual, com possíveis reflexos de longo prazo, ao dizer à Folha que "a coalizão PT e PMDB tem feito mal ao Brasil".

Ciro Gomes não é um político tradicional. Em que pesem aspectos tipicamente personalistas, como a simpatia por Aécio Neves, que contrasta com a simétrica antipatia que devota por José Serra, o pré-candidato socialista detém uma característica que o distingue na geleia geral da política: tem ideias para o Brasil. Certas ou erradas, elas introduzem no debate elemento que o distingue da mera barganha entre interesses particulares.

Nos últimos 15 anos, Ciro buscou ocupar o espaço deixado vago com o deslocamento peessedebista em direção à direita do espectro ideológico.

Originário do campo tucano, decidiu se opor ao viés neoliberal que o governo Fernando Henrique imprimiu ao país e ao PSDB, criado em oposição ao fisiologismo do PMDB.

Vale recordar que numa conversão, à época chocante e inesperada, FHC optou por uma aliança com o então PFL (hoje Democratas) na disputa presidencial de 1994. Tal junção descaracterizou o PSDB, como a de hoje com o PMDB ameaça o PT. Menos pelas concessões programáticas que acarreta do que pela falta de conteúdo que implica.

Desde há muito o PMDB deixou de ter apego a um programa. Talvez uma análise minuciosa mostre que o ciclo programático do partido se esgotou quando promulgada a Constituição de 1988. Desde então, a sigla se transformou em um condomínio de lideranças regionais, com as mais diversas inclinações.

A ausência de um ideário comum possibilita maior flexibilidade na ocupação de espaços de poder. Tanto apoia a opção neoliberal do segundo mandato de Fernando Henrique quanto o caminho desenvolvimentista do segundo mandato de Lula. Nunca se ouviu falar de um debate interno ao partido sobre os diferentes projetos que tais governos representam.

Diferentemente, mesmo em meio às transformações que o lulismo tem causado, o PT mantém um vínculo com a tradição que o orientou por mais de 20 anos. O terceiro congresso do partido, realizado em 2007, reafirmou o caráter socialista da sigla e as manifestações da direção partidária ao longo dos últimos dois anos foram sempre no sentido de orientar o Brasil para um modelo pós-neoliberal.

Não deverá ser diferente o programa proposto para a candidatura Dilma no quarto congresso, a ser realizado em fevereiro próximo.

Muitos poderão dizer que são apenas palavras. Mas elas têm consequências práticas. Basta ver a ação dos ministros e parlamentares do PT durante o governo Lula.

Diante das alianças que darão suporte à postulação de Dilma, o PT deveria ser coerente com essas orientações. Consciente de que não tem a maioria dos votos no país, é correto buscar uma aproximação com outras correntes, sabendo que aliança se faz com aquele que pensa diferente.
Mas, para um partido de esquerda que deseja compor uma frente eleitoral, o diálogo esperado é com os vizinhos, sejam de centro-esquerda, como o PSB e o PDT, sejam de esquerda, como o PSOL, o PC do B e o PV de Marina Silva. Pular sobre essas forças para unir-se ao PMDB sem discussão programática alguma é negar o sentido ideológico da escolha.

As razões para priorizar o PMDB não são desprezíveis. Elas atendem ao frio cálculo eleitoral. Deixar os cinco minutos de TV e várias seções estaduais peemedebistas nas mãos de Serra pode ameaçar a vitória nas urnas em outubro de 2010. Assim, é preciso estar consciente de que abrir uma temporada de conversas com a esquerda e a centro-esquerda, que poderia resultar na candidatura de Ciro a vice de Dilma, representa uma trilha ousada. Seria, contudo, uma lufada de ar fresco em um ambiente de sufocante ausência de propostas.

A sugestão presidencial de uma lista tríplice a ser enviada pelo PMDB para escolha do vice e a fala de Ciro na Câmara apontam para o mesmo perigo. O de que a candidatura Dilma seja envolvida por tal realismo que termine por negar os princípios que deseja representar. Mesmo com as incoerências passadas e presentes de Ciro Gomes e do PSB, eles ainda são uma chance que resta ao PT para impedir que o sistema partidário evolua em uma direção pasteurizada que não interessa à sociedade brasileira.
--------------------------------------------------------------------------------
ANDRÉ SINGER, 51, é professor do Departamento de Ciência Política da USP. Foi secretário de Redação da Folha e secretário de Imprensa e porta-voz da Presidência da República (governo Lula).

sábado, 19 de dezembro de 2009

Dicas para um casamento duradouro

Dicas para um casamento duradouro

por Marcelo Rubens Paiva

Poucos ficam indiferentes quando, numa cerimônia religiosa, o padre pergunta: “Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando e respeitando até que a morte os separe?”

Os homens se entreolham. Será que consegue? As mulheres torcem. As céticas abaixam a cabeça. Parentes das duas famílias miram o altar, encaram o novo membro, esperam a resposta, zelando pelo seu.

Já houve caso de pessoas que tiveram ataque de risos diante do padre. No entanto, não se sabe se algum noivo pediu: “Defina ser fiel.”

E se a noiva respondeu: “Cala a boca, seu canalha, você sabe muito bem do que ele está falando.”
Ou se houve a réplica: “Tudo bem. Ser fiel na alegria e na tristeza. E no tédio, o que fazer?”

Há muito se discute se é possível manter um casamento seguindo os preceitos [ou a utopia] da fidelidade. Homens e mulheres se dizem incapazes de seguir o sermão à risca. Cada parte encontra justificativas darwinistas.

Dizem eles: a seleção natural contesta a fidelidade, já que o macho precisa espalhar seu sêmen pelo maior número de fêmeas, para garantir na reprodução a sobrevivência da espécie.

Dizem elas: a fêmea fica de moita, observa o comportamento dos machos e escolhe aquele mais forte, para aprimorar o gene do grupo, e se aparece outro mais forte, viril e galã da novela, ela teria que mudar de parceiro.

Bem, você está cansado de ouvir este papo furado. Mas foi no começo da revolução sexual que se começou a elaborar os princípios do casamento aberto. Aquele em que não é preciso pular a cerca, basta atravessá-la calmamente, já que está escancarada.

A ideia foi amadurecendo, muitas verdades do casamento passaram a ser questionadas e novas fórmulas, apresentadas, como as casas de swing e o ménage à trois.

Aponte uma mulher que não ouviu do marido, após o ato: “Não me leve a mal, eu te amo, você é linda, mas... E se você chamar uma amiguinha para nos assistir? Nem vou encostar nela. Juro. Só para apimentar a nossa relação...”

O casal de filósofos franceses, Sarte e Simone de Beauvoir, é reconhecido como o primeiro a propagar que não havia trancas nem fechaduras nem batentes no seu matrimônio.

Bem, alguns acreditam que Simone- que apareceu gata graças ao Photoshop na polêmica capa da revista Observateur- descobriu só depois do porre e do sim que Sarte não era exatamente um modelo de exuberância física, além de caolho, e teria proposto a novidade.

Outros afirmam que eles precisavam de estímulos externos, já que o sexo entre dois existencialistas nunca se completa.

Um costuma parar no meio do ato e perguntar: “Mas se a essência vem antes da existência, nós não existimos, e nada faz sentido?” E ficam aterrorizados pela dúvida até um deles pegar no sono.

Imagine que um casal consiga, enfim, chegar a um consenso e estabelece uma rotina madura em um saudável e bem resolvido casamento aberto. O diálogo entre eles causaria estranheza para quem vê de fora. Mas não para eles:

“Gato, vou jantar com o Mário. Sem piadinhas.”
“De novo?”
“Não. Será a primeira vez.”
“Na semana passada, você jantou com Mário, até dormiu com ele.”
“Aquele foi o Rômulo.”
“Que Rômulo, eu conheço?”
“Você ficou com a mulher dele no nosso Réveillon da Costa do Sauipe.”
“Belas costas... Antes ou depois da meia-noite?”
“Antes. Depois você ficou comigo.”
“É mesmo... Que farra. Rasguei o seu vestido a dentadas.”
“Não, deve ter sido com a mulher do Rômulo.”
“Tem certeza?”
“Eu já estava pelada, não se lembra?”
“Por quê?”
“Porque vi os fogos no mar com o Arnaldo.”
“Arnaldo?”
“Cuja mulher você papou no Carnaval de Porto de Galinhas.”
“Galinha... Claro, como era o nome dela?”
“Você acha que eu devo ir pra cama hoje?”
“Com quem?”
“Com o Mário. Sem piadas. É nosso primeiro encontro. Se eu ficar com ele já no primeiro encontro, ele pode me achar uma vadia. Tem homem que gosta de charminho.”
“Se ele te chamar de vadia, eu processo ele.”
“Fico ou não fico?”
“Fica logo. A vida é uma só.”
“Estou gata?”
“Está linda.”
“Ele vai me achar atraente?”
“Se não achar, liga para o Rômulo.”
“Mas a calcinha está marcando?”
“Está uma delícia.”
“Com lenço ou sem?”
“Sem.“Com sutiã ou sem?”
“Sem.”
“Com batom ou sem?”
“Amor...”
“Que foi?”
“Sei lá, está me dando uma coisa agora...”
“Ciúmes?! Ah, gato, nem vem! A gente combinou.”
“Não isso, não. É que você está tão linda sem batom, sutiã, lenço, com a calcinha marcando, que...”
“Que...?”
“Que me deu uma vontade de... Nada não. Vai jantar com o Mário. Melhor dar logo. Tem também os caras que detestam mulheres enroladas.”
“Tem certeza? Se quiser...”
“Precisamos disso para manter a chama do nosso casamento.”
“Te amo tanto...”
“Olha, você já estava esquecendo a camisinha.”