terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Pelo direito de não opinar

Pelo direito de não opinar

por Marcelo Rubens Paiva, 07 fev. 2010

Segunda-feira. Ele acordou e, do nada, como se tivesse desistido, decidiu não ter mais opiniões. Sobre nada.

Já no café da manhã, não soube responder se o pão estava passado, e o queijo, coalhado. Comeu apenas uma fatia de mamão. E não decidiu entre adoçante ou açúcar. O café desceu amargo.

Ao trabalho. O taxista perguntou se ele preferia pela Marginal ou por dentro, pela Lapa. “Qual caminho o senhor sugere?”, perguntou, simulando um contato rotineiro. O helicóptero da rádio informara que a Marginal estava parada, avisou o motorista: “Vamos por dentro?”.

Ele não respondeu. Não sabia responder. Não achava nada. O taxista repetiu: ”Pela Lapa?”. Nada. Nenhuma resposta.

O cara deu a partida, engatou a primeira, foi percorrendo devagar, esperando a decisão do passageiro, que não vinha, e ele mesmo, o taxista, decidiu pela Lapa, mas sempre alerta, esperando a ordem de desviar para a Marginal, que não veio.

No elevador do escritório. “Sobe ou desce?”, escutou. Nenhuma resposta. A ascensorista perguntou o andar. Nada. Ele entrou e ficou no canto, parado. “O andar?”, repetiu. Ele gaguejou apenas: ”Não sei...” Ela, surpresa, esperou.

Até outro passageiro entrar e pedir: “Sobe”. E ele foi, subiu. E desceu. Pois não pararam no seu andar. Só quando coincidiu de alguém pedir o seu andar, ele pode sair do elevador.

Ao entrar no escritório, a secretária logo mandou um: “Bom-dia.” Ele olhou e: “É? Não sei. Pode ser. É, pode ser. Você acha?”

Nem sentou em sua mesa, o telefone tocou. Um instituto de pesquisa. Queriam saber em quem ele votaria.

“Não sei”, respondeu.

“Ah... O senhor não se decidiu entre o governo e a oposição?”

“Não sei.”

“Vai votar em branco?”

“Acho que não.”

“Nulo?”

”Claro que não! Nunca votei nulo!”

“Muito bem, então, o senhor é um indeciso, deixa eu marcar, in-de-ci-so.”

“Veja bem, não sou um indeciso, não sou nada, eu não acho nada.”

“Mas quem não acha nada é indeciso.”

“Não. Indeciso é um cara hesitante.”

“Hesitante?”

“É quem ainda tem dúvidas, não escolheu. Eu não vou escolher, nunca mais, porque não tenho mais opiniões, não acho nada.”

“Não? Por quê?”

“Porque não consigo.”

“Coitado...”

Foi almoçar. Mas pela escada. Evidentemente, não conseguiu escolher a promoção do quilo. O fato de não ter mais opiniões dificultava o de tomar decisões.

Ficou minutos diante do balcão. Até colocar todas na bandeja, da promoção 1 àquela mexicana apimentada. Como não sabia por qual começar, comeu só batatas fritas.

Na volta, a secretária panicou. O telefone não parara. A notícia vazou: descobriram que ele era um homem que não achava nada.

Deu a primeira entrevista. Para uma rádio: “Como se sente não tendo opiniões? O acha de não achar nada?”.

A secretária apontava para fotógrafos que escalavam o prédio em frente para flagrá-lo sem opiniões. O porteiro avisou que equipes de TVs. queriam subir.

Naquele dia, não se falou de outra coisa. E ele foi a chamada de muitos telejornais: ”Daqui a instantes, um homem afirma não ter opinião sobre nada.”

Sua semana foi tumultuada. Revistas de famosos queriam fotografá-lo com o look de quem não tem opinião. Apareceram muitos convites para palestras em departamentos de marketing de grandes empresas. “Mas o que vou dizer, se não tenho nada a dizer, não acho nada?”. Era isso que queriam, apontar que havia falhas no sistema, havia um indivíduo que não era absorvido pela propaganda.

Entidades o criticavam. Um alienado. Foi acusado de mau exemplo à juventude e um estorvo na sociedade de consumo. Mas algumas ONGs ligadas ao movimento antiglobalização passaram a apoiá-lo.

Organizaram uma passeata diante do seu escritório. “Pelo direito de não achar nada”, gritavam, auxiliados por membros do movimento contra a intolerância sexual, anarquistas, punks, chavistas, movimento em defesa do Teatro Oficina, da Mata Atlântica e dois bebuns.

Diante de sua janela, ele apareceu. Aplaudiram. Pediram para se pronunciar. Pararam para escutar. Ele gritou:

“Melhor vocês apertarem o passo! Acho que vai chover!”

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Caros generais, almirantes e brigadeiros

Caros generais, almirantes e brigadeiros

Por MARCELO RUBENS PAIVA

Eu ia dizer "caros milicos". Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?

Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.

Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.

Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.

Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do Cinema Novo?

Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.

Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, um Tribunal de Nuremberg? Por que não limpar a fama da corporação?

Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.

Sei que nossa relação, que começou quando eu tinha 5 anos, foi contaminada por abusos e absurdos. Culpa da polarização ideológica da época.

Seus antecessores cassaram o meu pai, deputado federal de 34 anos, no Golpe de 64, logo no primeiro Ato Institucional. Pois ele era relator de uma CPI que investigava o dinheiro da CIA para a preparação do golpe, interrogou militares, mostrou cheques depositados em contas para financiar a campanha anticomunista. Sabiam que meu pai nem era comunista?

Ele tentou fugir de Brasília, quando cercaram a cidade. Entrou num teco-teco, decolou, mas ameaçaram derrubar o avião. Ele pousou, saltou do avião ainda em movimento e correu pelo cerrado, sob balas.

Pulou o muro da embaixada da Iugoslávia e lá ficou, meses, até receber o salvo-conduto e se exilar. Passei meu aniversário de 5 anos nessa embaixada. Festão. Achávamos que a ditadura não ia durar. Que ironia...

Da Europa, meu pai enviou uma emocionante carta aos filhos, explicando o que tinha acontecido. Chamava alguns de vocês de "gorilas". Ri muito quando a recebi.

Ainda era 1964, a família imaginava que fosse preciso partir para o exílio e se juntar na França, quando ele entrou clandestinamente no Brasil.

Num voo para o Uruguai, que fazia escala no Rio, pediu para comprar cigarros e cruzou portas, até cair na rua, pegar um táxi e aparecer de surpresa em casa. Naquela época, o controle de passageiros era amador.

Mas veio a luta armada, os primeiros sequestros, e atuavam justamente os filhos dos amigos e seus eleitores - ele foi eleito deputado em 1962 pelos estudantes.

A barra pesou com o AI-5, a repressão caiu matando, e muitos vinham pedir abrigo, grana para fugir. Ele conhecia rotas de fuga. Tinha um aviãozinho. Fernando Gasparian, o melhor amigo dele, sabia que ambos estavam sendo seguidos e fugiu para a Inglaterra. Alertou o meu pai, que continuou no País.

Em 20 de janeiro de 1971, feriado, deu praia. Alguns de vocês invadiram a nossa casa de manhã, apontaram metralhadoras. Depois, se acalmaram. Ficamos com eles 24 horas. Até jogamos baralho. Não pareciam assustadores. Não tive medo. Eram tensos, mas brasileiros normais.

Levaram o meu pai, minha mãe e minha irmã Eliana, de 14 anos. Ele foi torturado e morto na dependência de vocês. A minha mãe ficou presa por 13 dias, e minha irmã, um dia.

Sumiram com o corpo dele, inventaram uma farsa (a de que ele tinha fugido) e não se falou mais no assunto.

Quando, aos 17 anos, fui me alistar na sede do 2º Exército, vivi a humilhação de todos os moleques: nos obrigaram a ficar nus e a correr pelo campo. Era inverno.

Na ficha, eu deveria preencher se o pai era vivo ou morto. Na época, varão de família era dispensado. Não havia espaço para "desaparecido". Deixei em branco.

Levei uma dura do oficial. Não resisti: "Vocês devem saber melhor do que eu se está vivo." Silêncio na sala. Foram consultar um superior. Voltaram sem graça, carimbaram a minha ficha, "dispensado", e saí de lá com a alma lavada.

Então, só em 1996, depois de um decreto-lei do Fernando Henrique, amigo de pôquer do meu pai, o Governo Brasileiro assumiu a responsabilidade sobre os desaparecidos e nos entregou um atestado de óbito.

Até hoje não sabemos o que aconteceu, onde o enterraram e por quê? Meu pai era contra a luta armada. Sabemos que antes de começarem a sessão de tortura, o brigadeiro Burnier lhe disse: "Enfim, deputadozinho, vamos tirar nossas diferenças."

Isso tudo já faz quase 40 anos. A Lei da Anistia, aprovada ainda durante a ditadura, com um Congresso engessado pelo Pacote de Abril, senadores biônicos, não eleitos pelo povo, garante o perdão aos colegas de vocês que participaram da tortura.

Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Cura-se qualquer doença

Cura-se qualquer doença

RUY CASTRO

Certa vez, meu amigo Fernando Pessoa Ferreira propôs fundarmos uma igreja, o Umbandismo Marxista do Oitavo Dia, instituição sem fins lucrativos, com renda destinada a uma associação de órfãos em Miami. Mas arranjamos emprego e a idéia foi abandonada. Outro dia, Fernando repassou-me e-mail que circula pela internet, com exemplos de homens que, ao contrário de nós, mantiveram acesa a chama da fé desinteressada. Um deles, o profeta Luís Cláudio, de Matosinhos, Portugal, anuncia-se como "ex-travesti, ex-presidiário, ex-bruxo e ex-portador do vírus da Aids, agora casado com uma mulher que não tinha útero e tendo dois filhos com ela". Promete milagres. A conferir. Mais impressionante é o brasileiro Carlos Magalhães, "engenheiro, matemático, psicólogo, filósofo, poeta e compositor", que diz ter sido indicado para o Prêmio Nobel de Fisiologia pela descoberta da quarta parte da mente humana, denominada de "essência". Descobriu também como transformar a água do mar em água doce e potável, "evitando com isso a extinção da humanidade" - terá sido boa idéia? Seguem-se no anúncio os dados bancários para depósitos. Outro benemérito é José Cosmo da Silva, que oferece "garrafadas" salvadoras para "diabete, colesteró, bronquite, presão alta, grastite, enflamação no últero, esmagrece, enflamação da prosta, menopalza, levanta a moral e disgasto físico". Falta-lhe um pouco de português, mas, se precisar, vou recorrer a uma dessas garrafadas. Afinal, no meu tempo, bebi coisas muito piores. Mas meu favorito é o Pai Ambrósio: "Resolvo problemas amorosos e profissionais. Curo qualquer doença (até viadagem). Curo qualquer vício. Encontro cão perdido. Tiro unha encravada e fimose. Jogo cartas, bingo e bilhar". A quem quiser, posso passar o telefone.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Deus existe?

Deus existe?

“Até mesmo uma opção resoluta

pelo ateísmo pode envolver ambiguidades”

MARCELO COELHO, Folha de São Paulo

QUANDO A pergunta é simples demais, o santo desconfia. A editora Planeta lançou recentemente um livro fascinante e curto (125 páginas), que, sob o título "Deus Existe?", transcreve um diálogo público entre um filósofo ateu, Paolo Flores d'Arcais, e ninguém menos do que o cardeal alemão Joseph Ratzinger.

O encontro se deu num teatro, em Roma, em fevereiro de 2000 -cinco anos antes, portanto, de Ratzinger tornar-se Bento 16.

Apesar do título do livro, a questão sobre a existência de Deus não se coloca de forma direta -e talvez seja melhor assim. O debate entre um ateu e um cardeal pode ser bem mais complexo do que sugere a pergunta. Uma formulação muito sumária, do tipo "Deus existe?", pode provocar respostas simples demais: "Sim", "não sei" ou "não".

Pessoalmente, desde criança marco a terceira alternativa. Mas até mesmo uma opção resoluta pelo ateísmo pode envolver ambiguidades. Posso dizer, por exemplo: "Não acredito que Deus exista". Ou: "Acredito que Deus não exista".

Posso, porém, observar apenas: "Quem diz que Deus existe não tem prova nenhuma do que está dizendo", e acrescentar: "Só acredito no que pode ser provado".

E, nesse momento, o bom Ratzinger já estará esfregando as mãos de contentamento apostólico. Pois é inegável que acredito em muitas coisas que não sei bem como poderiam ser provadas cientificamente. Acredito que exista uma coisa chamada beleza, por exemplo.

Se me pedirem para apontá-la, posso citar uma série de exemplos, uma série de manifestações da beleza no cotidiano; o crente pode apontar outras tantas manifestações de Deus, e ninguém provou nada com isso.

No seu diálogo com Paolo Flores d'Arcais, entretanto, Ratzinger dá um passo a mais. Certo, diz o cardeal, a existência de Deus não pode ser provada pelo "método positivo", isto é, científico. Mesmo sem ter provas, entretanto, a fé em Deus não é puramente irracional. Ao contrário, a razão está do lado dos católicos nesse caso.

Seu interlocutor resiste bravamente a esse golpe. Tolerante e ateu, Flores d'Arcais aceita que alguém simplesmente diga, como o velho teólogo Tertuliano, "acredito porque é absurdo". Ou que lembre Kierkegaard: "A fé começa justamente onde termina o pensamento".

Mas Ratzinger não quer limitar a crença em Deus aos porões sentimentais da alma. A tradição católica, diz ele, foi uma espécie de "pré-Iluminismo" contra as irracionalidades pagãs.

E a ideia de um Deus criador do céu e da Terra, prossegue, é indispensável para qualquer pessoa que preze a razão. Sem um logos, um verbo que está na origem de tudo, teríamos de admitir que o mundo, a natureza, o destino humano, não passa de fruto do acaso, não tem sentido nenhum, é puramente absurdo. Como então preservar qualquer "racionalidade" com esses pressupostos?

Num artigo incluído nessa edição, Ratzinger formula o problema com mais eloquência: "Pode a razão renunciar à prioridade do racional sobre o irracional, à existência original do logos sem abolir a si mesma?" Meu ateísmo -e meu racionalismo- respondem que sim. A medicina sabe perfeitamente que, com todos os seus avanços, não elimina o fato de que todos irão morrer. Reconhecer a "prioridade" da morte não faz com que a medicina esteja pronta a "abolir-se a si mesma"...

Flores d'Arcais não sai vitorioso, entretanto, do debate com Joseph Ratzinger. Quando se trata de defender princípios universais e inalienáveis, como os direitos humanos, nosso ateu de plantão cai na armadilha do relativismo: muitas sociedades admitiram o homicídio, a antropofagia...

Ratzinger insiste, com razão, que se muitas sociedades fizeram coisas detestáveis, isso não torna casuais, contingentes, os direitos humanos. D'Arcais também não gostaria que isso acontecesse, mas se confunde no debate.

O problema, a meu ver, teria de ser definido de outra forma. Se existem direitos universais, e se um termo como "dignidade humana" precisa ter sentido, a questão é saber como lhes dar fundamento. Mas esse fundamento, que deve ser a-histórico, absoluto, transcendente, não precisa fazer apelo ao "sobrenatural" -e negar o sobrenatural é algo que, pelo que li, não está nas cogitações de Ratzinger, com tudo o que concede às conquistas do Iluminismo.

coelhofsp@uol.com.br

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Yes, nós também tivemos Woodstock

Yes, nós também tivemos Woodstock

Grandes bandas desconfiaram, mas acabaram vindo ao Brasil e abrindo rota

Fonte: Jotabê Medeiros, Estado de São Paulo

A iluminação de todos os shows era a mesma, emprestada pelo Queen. O cenário do show dos Paralamas do Sucesso era composto de apenas um vaso de plantas. O local era um terreno emprestado. Erasmo Carlos foi mal escalado e tocou hostilizado por milhares de metaleiros. O grupo Whitesnake foi convidado de última hora para substituir o Def Leppard, cujo baterista tinha sofrido um acidente e amputado um dos braços.

Apesar dos percalços, o primeiro Rock in Rio, cuja realização completa 25 anos hoje (ocorreu entre 11 e 20 de janeiro de 1985), reuniu 1.380 milhão de pessoas (quase três vezes o público do festival de Woodstock) em Jacarepaguá, colocando o Brasil definitivamente no mapa geopolítico do rock-n"-roll. Tornou-se um grande (e único) caso de franchising de rock, inspirando outros aventureiros - já se fala em trazer o festival americano Lolapalloza ao Brasil.

"Não era um projeto megalômano. Ele nasceu megalomaníaco porque se você não botasse 1 milhão de pessoas na plateia o festival não se pagava", disse ao Estado na semana passada o publicitário Roberto Medina, criador do festival, que tinha 35 anos na época. Ele lembra que quando procurou o agente da banda inglesa Queen, Jean Beach, foi inicialmente visto como uma piada. "Ele me disse que, se nem os americanos tinham como fazer o que eu pretendia, muito menos um rapaz brasileiro. E me deu uma champanhe como prêmio de consolação."

Mas quando a coisa pegou, o Queen veio. E muito mais: Iron Maiden, AC/DC, Ozzy Osbourne, B-52"s, Scorpions, Nina Hagen, George Benson, James Taylor, Al Jarreau, Gilberto Gil, entre outros. De lá para cá, ele realizou três edições no Brasil (1985, 1991 e 2001), três em Portugal (Lisboa) e uma na Espanha (Madri). Em 1985, naquele ano pioneiro, foram dez dias, 90 horas e 5.400 minutos de música, doideira, lama e excitação. Veio gente do mundo todo.

Hoje, em 25 anos de existência, a mostra já colocou 650 bandas em seus palcos. E deve voltar ao Brasil em 2011. "Tá na hora de trazer de volta", diz Medina, falando por telefone do Rio de Janeiro. O publicitário vive há dois anos em um tranquilo bairro madrilenho, Las Rozas, e só contava trazer o Rock in Rio de volta em 2014, mas resolveu antecipar. Ele estava havia 20 dias em negociações com a prefeitura do Rio de Janeiro, que espera estabelecer uma grande agenda de eventos na cidade preparando-a para a Copa de 2014 e a Olimpíada. E conta que já tem propostas de quatro patrocinadores de um mesmo setor para bancar o retorno da mostra ao Brasil.

Após três edições em Portugal e uma na Espanha, o festival vai instalar-se também em Poznan, na Polônia, no ano que vem. Em Lisboa, já é um item da agenda nacional, tão aguardado quanto a Eurocopa e a Expo. Em Madri, o primeiro Rock in Rio, em 2008, cerca de 300 mil pessoas compareceram a Arganda del Rey, a cidadezinha nas imediações da capital espanhola, para ver Bob Dylan, Franz Ferdinand, Lenny Kravitz, The Police, Shakira e Amy Winehouse.

Ao longo de sua história, o Rock in Rio enfrentou adesões insólitas (Axl Rose veio em 2001 após anos recluso, e ele mesmo pediu para voltar) e deserções em massa (em 2001, cinco bandas, incluindo o Jota Quest, saíram protestando contra a organização). A primeira edição do festival foi corajosa também em escalar (e ajudar a construir) as bandas do incipiente rock nacional, que dava seus primeiros passos naqueles tempos pós-Raulzito e Mutantes. Barão Vermelho, Blitz, Kid Abelha, Lulu Santos, Paralamas do Sucesso e até os veteranos Rita Lee e Erasmo Carlos estavam presentes, ao lado de medalhões da MPB, como Alceu Valença, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Moraes Moreira e Gilberto Gil.

O segundo Rock in Rio não é o que Roberto Medina mais gosta de lembrar. Transferido para o Maracanã, foi transmitido pela Rede Globo ao vivo para 55 países e, patrocinado pela Coca-Cola, levou 700 mil pessoas ao Maracanã nos seus nove dias de duração. Num estádio, virou campo de guerra e o saldo foram três mortes e brigas no gramado, que resultaram em prisões e inquéritos. Foi um festival predominantemente pop, com artistas e grupos como A-Ha (um dos maiores públicos de rock da história), Dee-Lite, Information Society, INXS, Lisa Stanfield, George Michael, Billy Idol e New Kids on the Block. Do rock, estiveram lá (entre outros) o velho Santana, Joe Cocker, Judas Priest, Megadeth, Faith No More, Happy Monday, Run DMC e uma banda que faria história, o Guns N" Roses.

sábado, 9 de janeiro de 2010

As minorias que estão por dentro

As minorias que estão por dentro

Descrição de astrologia por Adorno
aplica-se bem a outras ideologias,
religiosas e laicas
ANTONIO CICERO

NO LIVRO "AS ESTRELAS Descem à Terra", o filósofo Theodor Adorno observa que aquele que conhece a astrologia já se considera acima do homem comum, isto é, do homem que aceita acriticamente o senso comum sobre o mundo existente.

"A astrologia", diz Adorno, "à maneira de outras crenças irracionais, como o racismo, oferece um atalho, reduzindo o que é complexo a uma fórmula prática e oferecendo, simultaneamente, uma agradável gratificação: o indivíduo que se sente excluído dos privilégios educacionais pode, ainda assim, pertencer a uma minoria que está "por dentro'".

Essa descrição da astrologia aplica-se bem a inúmeras outras ideologias, religiosas e laicas. Como pretendo dizer algo tanto sobre aquelas quanto sobre estas, mas não há espaço para isso tudo numa só coluna, falarei apenas das religiosas neste artigo, deixando as laicas para o próximo.

Lembremo-nos, por exemplo, do cristianismo primitivo. Segundo seu verdadeiro fundador, o apóstolo Paulo, Deus disse: "Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes". Paulo pergunta: "Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?" E explica, adiante: "Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus [...]. O Senhor conhece os pensamentos dos sábios e sabe como eles são fúteis". No lugar da sabedoria deste mundo, Paulo propõe a fé, que, como diz, não se baseia na sabedoria humana, mas no poder de Deus.

Com essas penadas são varridas, entre outras coisas, a filosofia, a ciência, a medicina, a história, a retórica, a literatura clássicas. As obras de Platão, Aristóteles, Epicuro, Lucrécio, Euclides, Arquimedes, Hipócrates, Heródoto, Tucídides, Demóstenes, Cícero, Homero, Hesíodo, Píndaro, Virgílio e inúmeros outros são cassadas, entre as quais (segundo a sabedoria dos sábios, a inteligência dos inteligentes e a erudição dos eruditos, tanto da época de Paulo quanto da nossa) algumas das maiores preciosidades jamais produzidas pelos seres humanos.

Nesse caso, os que estão "por dentro" da palavra de Deus não apenas se sentem superiores ao homem comum, como diz Adorno, mas também -e sobretudo- aos "sábios", aos "inteligentes" e aos "eruditos". Vingam-se assim -de novo, nas palavras de Adorno- de se sentirem excluídos dos privilégios educacionais.

Foi indignado com as palavras de Paulo acima citadas que Nietzsche afirmou que a religião cristã, sendo "inimiga mortal da sabedoria do mundo, isto é, da ciência, aprovará todos os meios pelos quais a disciplina do espírito, a integridade e o rigor em ciências do espírito puderem ser envenenados, caluniados, desacreditados. A fé como imperativo é o veto contra a ciência -na prática a mentira a todo custo... Paulo compreendeu que a mentira, que a "fé" era necessária; mais tarde a Igreja compreendeu Paulo".

Na verdade, com o triunfo e a consolidação do cristianismo, as coisas mudaram. De maneira geral, a doutrina da Igreja Católica se tornou senso comum, em diferentes níveis de sofisticação, tanto para os que se beneficiavam de privilégios educacionais -nas universidades, por exemplo, onde parte da herança clássica é assumida- quanto para os que deles eram excluídos.

Isso não quer dizer que não tenha havido seitas que se considerassem acima do senso comum e se rebelassem contra a sabedoria deste mundo, inclusive contra a pretensa sabedoria da doutrina católica. Durante a Idade Média, proliferaram seitas de hereges, milenaristas, salvacionistas etc. a manifestar seu ódio contra toda sabedoria humana e, em particular, contra a razão.

Assim também fizeram os líderes da reforma protestante. Não admira que Lutero, declarado discípulo de Paulo, tenha chamado a razão de "puta amaldiçoada". "A razão", diz, "tem que ser enganada, cegada e destruída. A fé tem que pisar toda razão, senso e entendimento".

Em que essas ideologias religiosas são próximas da astrologia, tal como descrita por Adorno? Em se considerarem acima do senso comum e em proporcionarem aos seus adeptos a sensação de pertencerem a uma minoria que está "por dentro".

Mas não é toda ciência assim? A diferença, para Adorno, é que a astrologia consiste numa "crença irracional". Falarei disso no próximo artigo.

E em que são distantes da astrologia? Em desprezarem não só o senso comum, mas toda sabedoria humana, inclusive a razão. Nesse sentido, as ideologias laicas, de que falarei também no próximo artigo desta coluna, estão bem mais próximas da astrologia.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Trapalhões x Monty Python

Trapalhões x Monty Python

O nosso Brasil x Inglaterra,

disputado em uma praia alagoana,

foi o jogo mais feio que (não) vi na minha vida

XICO SÁ, hoje na Folha

AMIGO TORCEDOR , amigo secador, acabei de humilhar uns ingleses em uma pelada na praia de Japaratinga, Alagoas. Escrevo ainda resfolegante, desculpa aí, gente, pelos maus-tratos com a gramática e a prosódia, vai assim mesmo, vale a vida que o vento leva.

Foi o jogo mais feio que vi e joguei na história. Nem aquele Íbis x Santo Amaro, que cobri nos anos 1980 no Recife, em uma Quarta-Feira de Cinzas, chegou aos pés.

Seis contra seis. Brasil x Inglaterra, com dois alagoanos beatlemaníacos reforçando o time da rainha. De uma dúzia de marmanjos, oito usávamos óculos com graus nas alturas.

Primeiro acerto: todos devem se livrar das lentes e jogar cego mesmo. A regra é clara, o futebol é no escuro.

Na primeira disparada como falso ponta-esquerda, caí no colo de uma tiazinha que brincava inocentemente de castelo de areia com as crianças. Colo macio, justiça seja feita, nestes tempos de mulheres com barrigas duras como as de travestis.

Brasil x Inglaterra, digo, Trapalhões x Monty Python, com direito a alguns minutos de puro futebol filosófico, como na invenção do grupo inglês de humoristas. Juro que tentei usar tudo que aprendi em um recente bate-bola no Parque Antarctica com Sócrates -gravação de umas chamadas para o "Cartão Verde", programa que fazemos juntos na TV Cultura. Em vão.

Onde buscava o calcanhar estiloso do Magrão, encontrei só marmotas, trejeitos e mungangas do anti-herói Didi Mocó Sonrisal, meu ídolo de infância, madureza e velhice.

Vendo aquele espetáculo, o titio Nelson riscaria uma das suas belas frases: a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana!

Esqueça o que escrevi, diria o gênio, padrinho espiritual desta coluna juntamente com o bom Antônio Maria, claro que não sou besta de me apadrinhar de quem não presta.

Não havia nada de shakespeariano naquela pelada. No máximo, consegui aplicar um involuntário drible da vaca louca em um dos ingleses.

Justamente no brancão maluco, torcedor do Chelsea, que havia ingerido, segundo o Databoteco, 11 caipirinhas de cachaça. Sim, ele também havia fumado do bom e do melhor da Cabrobonha sertaneja, beira do rio São Francisco.

Segue o jogo dos perdidos no paraíso. Girei a perna, em um momento de câimbra, e vi uma boyzinha -como são chamadas as lolitas em alguns lugares do Nordeste- gritar "golaço!". Fui tomar satisfação: "Como assim, por que golaço?".

Havia sido um gol espetacular, segundo os novos amigos. Pena que não faço a menor ideia do que havia feito. Vai ficar como aquele de Pelé contra o Juventus. Um mistério sem imagens é sempre mais bonito.

Segue a vida. O golaço que fiz e não vi me deu saudade dos velhos atacantes zumbis e geniais. Os Fios Maravilhas, os Dadás, os Chulapas...

Qual o placar do nosso Brasil x Inglaterra? Outro mistério para a eternidade. Nem o garçom que tomava conta da turma e muito menos a boyzinha fazem ideia da contagem.

Apareceu até testemunha que dissesse que foi o maior 0 a 0 da história ludopédica. Quem sabe?

Tenho a impressão que foi 20 a 19 para os Didis Mocós! Oficialmente é o que fica valendo e revoguem-se quaisquer versões dos ingleses.

xico.folha@uol.com.br